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No século XVII, uma estranha praga assola o Japão feudal, atingindo apenas os habitantes do sexo masculino. Quando a sociedade se vê reduzida, havendo um homem para cada quatro mulheres, é obrigada a alterar os seus costumes, à medida que as mulheres começam a ocupar os cargos antes ocupados por homens, desde os campos à política e, até, no xogunato.

Género

Josei, História Alternativa,
Drama, Romance, Política

Número de volumes estimados

10

Ano

2005-presente

Mangaka

Yoshinaga Fumi

    Encontrei Ōoku por acaso aquando de uma busca de novos josei para ler, e a sua lista de prémios chamou-me a atenção, que ficou redobrada quando li a sua peculiar sinopse. Depois de uma leitura rápida por algumas opiniões na Internet, resolvi então pegar nele. No entanto, nem as mais altas expectativas me prepararam para o enredo fantástico, a arte sublime e a emoção profunda que Ōoku proporciona.

    O trabalho de Yoshinaga Fumi incide em várias gerações do xogunato Tokugawa, que existiu na realidade, mas faz-lhes uma pequena alteração: devido a uma praga que atinge apenas jovens rapazes, apesar de ocasionalmente atingir homens adultos, a sociedade japonesa vê-se com cada vez menos homens, até estagnar numa proporção homem/mulher de 1:4. Assim, aquando do nascimento de um menino, as famílias protegem-no o mais possível de forma a que consiga viver tempo suficiente para crescer em pleno. No entanto, devido a haver muito mais mulheres do que homens, muitas famílias vêem-se obrigadas a prostituir os seus filhos, que oferecem a sua semente em troca de dinheiro.

   A xogum, porém, não tem esse problema. No Castelo de Edo há o Ōoku, ou Grande Interior em português, onde reside um enorme harém masculino cuja única função é trazer prazer à xogum e, mais importante ainda, criar herdeiros para garantir a continuação da casa Tokugawa.

(Review tanto quanto possível sem spoilers.)

    Este manga começa com Yoshimune, a quarta xogum feminina a existir no Japão, já no tempo em que apenas as pessoas velhas se lembram de ter havido uma altura em que os homens equiparavam-se às mulheres em número. Yoshimune não é a heroína típica de um shoujo ou josei; é inteligente, astuta e bastante carnal, ligando pouco aos costumes e à pompa que deveria seguir, comendo apenas o suficiente para sobreviver e recebendo os seus conselheiros ainda com a roupa de dormir. É devido a esta esperteza vivaz que se vai apercebendo de pequenos pormenores que não lhe fazem sentido: o facto de, tal como as outras mulheres, ter tido de mudar de nome aquando da posse do seu título, adquirindo Yoshimune, um nome masculino, ou ainda o facto de qualquer encontro com políticos estrangeiros se dar no Ōoku, uma residência repleta de homens, enquanto que Yoshimune se esconde por trás de uma cortina. Yoshimune decide, assim, contactar um escriba que tem mantido uma crónica desde o reinado do último xogum masculino. 

   O leitor vai descobrindo toda a história com Yoshimune, havendo vários volumes dedicados a diferentes gerações de xoguns, desde Iemitsu, primeiro um homem e, aquando da sua morte, substituído secretamente pela sua filha, passando por Ietsuna e, finalmente, acabando em Tsunayoshi, a antecessora de Yoshimune. É de notar que todos estes xoguns existiram na realidade, e Yoshinaga tem uma atenção muito aguda quanto à história alternativa que está a tecer. Há notas culturais no final de cada volume, mas, para quem sabe pelo menos um pouco da história do Japão, é bastante interessante ver a perspectiva de Yoshinaga de vários acontecimentos verídicos, como, por exemplo, o Grande Incêndio de Meiriki, a História dos 47 Rōnin e, até, o Sakoku, ou seja, o fecho do Japão que não permitia a ninguém sair ou entrar no país (no manga, isto foi feito de modo a que nenhum país estrangeiro se apercebesse do quanto a população masculina se tinha reduzido, evitando assim invasões).

 

   Ōoku foi dos poucos mangas que realmente me conseguiu surpreender quanto ao enredo. Por duas vezes, dei por mim a pensar: “Ora, por esta não estava mesmo nada à espera.” Sem entrar em spoilers para quem ainda não leu, devo dizer que a minha geração favorita até agora foi a de Iemitsu e toda a sua história dentro do Ōoku, incluindo, claro está, todas as peripécias com Arikoto.

   No trabalho original, Ōoku está em japonês arcaico, sendo por isso que a tradução da Viz optou por usar um inglês shakespeariano, havendo thees e thys com abundância. Esta tem sido talvez a parte mais criticada deste manga, dado que várias pessoas acharam essa tradução bastante desconcertante e fora do contexto do manga. Pessoalmente, este inglês antigo não me perturbou minimamente e compreendo o porquê de terem feito esta escolha. Penso que, caso a tradução estivesse com o inglês actual, se perderia algum do sentimento original.

   Ōoku tem, no Japão, sete volumes de momento, estando previstos dez no total. Caso mantenha a excelente qualidade com que nos tem habituado até agora, Ōoku tornar-se-á, sem dúvida, no meu josei favorito. Não o poderia recomendar mais!

   Avaliação: 9/10.