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Caster é, até agora, o personagem mais monstruoso de Fate/Zero. Pergunto-me se as suas monstruosidades terão um fim nos inícios da segunda série porque é realmente revoltante. Nesta guerra, foi convocado Gilles de Rais, nobre francês que combateu ao lado de Joana d’Arc na Guerra dos Cem Anos… e que tinha umas manias demasiado macabras, como veremos. O seu Mestre, Ryuunosuke, também tem um gosto especial por sangue e crueldade portanto digamos que foi um chamamento acidental mas bem sucedido.

Gilles de Rais serviu também de inspiração a Charles Perrault para a escrita do conto Barba-Azul, em 1697.

Gilles nasceu em 1404. O local não é certo: alguns historiadores afirmam ter sido no castelo de Machecoul (onde viria a cometer as suas atrocidades), outros apontam para a vila de Champtocé-sur-Loire. De qualquer forma, nasceu no seio de uma família abastada.

Era um rapaz inteligente que falava fluentemente o latim e se dedicava à execução de iluminuras em manuscritos religiosos. Após a morte dos pais foi colocado sob a tutela do seu avô, Jean de Craon, juntamente com o seu irmão. Craon tentou casá-lo inúmeras vezes até que, por fim, conseguiu uni-lo a Catherine de Thouars da Bretanha, herdeira de La Vendée e de Poitou. Gilles viu assim a sua fortuna aumentar exponencialmente. O casal teve uma filha, Marie, em 1429.

Aos dezasseis anos Gilles juntou-se ao exército, combatendo do lado dos duques da Bretanha contra a casa rival do conde de Penthiérre, Olivier de Blois. Os seus esforços foram recompensados com a atribuição de somas monetárias como forma de agradecimento. O seu sucesso na via militar continuou a aumentar. As batalhas constantes permitiam-lhe dar sobretudo vazão ao seu gosto doentio por violência e carnificina. Combateu também na Guerra dos Cem Anos (contra a Inglaterra) ao lado de Joana d’Arc – algo que, como sabemos, tem alguma relevância em Fate/Zero. Contudo, Gilles não esteve presente na execução de Joana. Em contrapartida era cada vez mais reconhecido pela sua bravura em combate e, após o Cerco de Órleans, foi-lhe permitido acrescentar a prestigiada flor-de-lis ao seu brasão.

O seu afastamento do exército foi gradual. Com o que tinha amealhado nas suas variadas campanhas conseguiu pôr em prática dois projectos há muito sonhados: a construção de uma capela e a produção de uma peça de teatro, intitulada Le Mistére du Siége d’Órleans. Os projectos, particularmente a peça, levaram-no quase à falência, obrigando-o a vender parcelas das suas várias propriedades. Em 1433 já só possuía dois castelos. A peça estreou em Órleans em 1435: foram criados seiscentos figurinos que eram posteriormente destruídos. Cada encenação requeria novos fatos, novos luxos. A sua família viu-se forçada a intervir: apelou ao Papa para este desacreditar a sua capela e dirigiram-se ao rei – com sucesso. A 2 de Julho de 1435 foi divulgada uma comunicação na região que denunciava os gastos de Gilles e o proibia de vender mais terras. A sua credibilidade caiu por terra e os credores começaram a apertar o cerco em seu redor. Começou a contrair empréstimos, dando como garantia as suas posses (manuscritos, obras de arte, etc.).

Em 1438, de acordo com testemunhas, Gilles mandou um padre, de nome Blanchet, procurar indivíduos versados em alquimia e bruxaria. Blanchet entrou em contacto com o italiano Prelati que forneceu a Gilles livros de magia, que este estudou meticulosamente. A primeira experiência decorreu no seu castelo de Tiffauges. Consistia no chamamento de Barron, um demónio. A experiência fracassou mas Gilles, com uma crescente frustração, experimentou o chamamento mais duas vezes. Ao ver que não tinha resultados dirigiu-se a Prelati, que replicou que Barron estava zangado e pedia partes mutiladas de crianças como oferta. Como se verá no próximo parágrafo isto era algo que não custava nada a Gilles. Quando, mesmo com a oferta, Barron se recusou a aparecer, Gilles deu como terminada a sua viagem pelo oculto.

É aqui que a coisa fica macabra.

Na sua confissão, Gilles afirmou que os primeiros homicídios tiveram lugar entre 1432 e 1433 em Champtocé-sur-Loire. Pouco tempo depois regressou ao seu castelo de Machecoul onde assassinou e sodomizou pelo menos quarenta crianças. De acordo com relatos, os rapazes eram aliciados com vestes sumptuosas, boa comida e boa bebida. Eram também drogados. Depois da refeição eram levados aos aposentos privados de Gilles onde o terror da sua verdadeira situação era revelado. As crianças eram então atadas com uma corda e penduradas num gancho. Gilles masturbava-se para cima das suas barrigas e pernas. Depois disso punha-as no chão e dizia para não terem medo, que ia tudo correr bem. Era a expressão breve de esperança que passava pelo rosto das crianças que realmente dava prazer a Gilles. Era depois disto que as assassinava. Segundo o seu criado, cúmplice em muitos dos crimes, Gilles costumava ter relações sexuais com as vítimas mesmo depois de mortas. O próprio afirmou que beijava os corpos depois de mortos e que contemplava os mais belos – por dentro e por fora, já que os costumava abrir. Os corpos eram depois queimados.

Gilles foi condenado à morte. A sua execução tomou lugar no dia 26 de Outubro de 1440. Foi enforcado e queimado. Tinha 36 anos.

A personagem em Fate/Zero está estupendamente fiel. A sua obsessão por Joana d’Arc está um pouco exagerada, é certo, mas os motivos que o levam a matar, o fazer as vítimas acreditar que ainda há esperança, está tudo lá. E é tudo transmitido a Ryuunosuke. Tenho curiosidade em ver como é derrotado. Pelo andar das coisas é quase certo que será o primeiro a desaparecer logo no início da segunda série. E ainda bem que assim é. É uma personagem verdadeiramente tenebrosa: quer por aspecto, quer por personalidade, quer pelo excelente trabalho do actor que lhe dá voz.

Este é o terceiro artigo desta série. Aqui ficam os links para os anteriores:

Lancer
Assassin