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The Secret World of Arrietty (2010)

[Aviso: Contém spoilers]

Arrietty é baseado no livro “The Barrowers” (1952) da autora britânica Marry Norton. Para quem desconhece, o livro conta a história de uma pequena família, semelhante aos humanos mas em tamanho reduzido (têm cerca de 10 centímetros), que vive de baixo do soalho de uma casa e obtém por “empréstimo” o suficiente para sobreviverem, mantendo a sua existência em segredo.

A história é um clássico e várias adaptações cinematográficas já foram feitas, tais como a série de animação “the Littles” (1983) e a adaptação live-action “The Barrowers” (1992). Existem outras, talvez até mais conhecidas, mas estas foram as que eu vi quando era mais novo e que fizeram com que eu tenha um carinho especial por este romance. Por este motivo foi com grande nostalgia que assisti a “Arrietty”.

 

Esta não é uma história de espíritos ou outros elementos fantásticos e sobrenaturais, é sim uma história calma e mais tradicional sobre a relação de amizade e o contraste entre duas pessoas que pertencem a mundos diferentes.

O filme começa com a chegada de um rapaz chamado Sho à casa onde a pequena família habita. Sho tem um grave problema cardíaco, e veio até à casa de campo descansar um pouco antes da sua cirurgia. É um rapaz calmo e pacato, que passa a maior parte do tempo a ler. Arrietty é uma rapariga de 14 anos que vive de baixo da casa com a sua família. É bastante energética e tem uma enorme vontade de explorar o “mundo”.
A chegada de Sho à casa coincide com a descoberta de Arrietty, um encontro que mudará a vida de ambos.

Rapidamente a amizade floresce entre eles. Mas apesar das boas intenções de sho, esta ligação traz perigos para a pequena família, principalmente pela obsessão de Haru, a empregada da casa, que decide capturá-los a qualquer custo para provar que eles existem. E se ao inicio o pai de Arrietty achava que era melhor dar tempo ao tempo para ver como as coisas corriam, logo se apercebe que para sobreviverem terão que sair da casa e começar uma nova vida noutro lugar.

São dois mundos diferentes mas que afinal são tão parecidos.
Arrietty e a sua família são dos últimos da sua espécie, mas ainda assim são bastante unidos e lutam para para sobreviver num mundo cheio de perigos e que não está adaptado para eles. Sho por outro lado faz parte dos 6.7 biliões de humanos (como ele menciona), mas ironicamente é uma pessoa bastante sozinha e que perdeu a vontade de lutar pela vida.

É um filme simples, não há antagonistas, há sim as diferentes personalidades de cada um e a sua maneira de estar e ver o mundo. Temos como exemplo a personalidade de Arrietty que é bastante corajosa e mantém uma mente aberta, o que a leva a descobrir que nem todos os humanos são iguais. Alias, ela descobre que tanto no mundo dos humanos como no seu existem diferenças entre as pessoas e não é tudo tão linear como o seu pai faz transparecer. Exemplos disso são a própria Arrietty e Spiller, que apesar de serem da mesma espécie não podiam ser mais diferentes. Sho e Haru são o exemplo no mundo dos humanos. As diferenças e o modo de estar no mundo têm a ver com as experiências, mentalidade e cultura de cada um.

É um filme dos estúdios Ghibli. Teve a participação de Hayao Miyazaki, que escreveu a história baseada  no livro “The Barrowers” e marcou a estreia de Hiromasa Yonebashi como director. O filme tem uma qualidade inegável. Os detalhes estão extraordinários e durante os primeiros minutos ficamos maravilhados com aquele mundo encantador onde nos é dado a conhecer o modo de vida da pequena família e a sua visão do mundo. A animação flui através dos cenários que estão muito bem elaborados e foram pintados à mão (obrigado Ritsu), as cores fundem-se umas nas outras, a iluminação está perfeita, nada é esquecido.

Em relação à musica, “Arrietty” é um pouco diferente daquilo a que estamos habituados do estúdio Ghibli. Mas penso que a banda sonora, que ficou a cargo da artista francesa Cécile Corbel, está genialmente bem conseguida e ajuda imenso a dar personalidade ao filme. Simplesmente adorei. Tanto a parte instrumental como a sua voz dão ao filme uma identidade bastante distinta e singular.

O filme é encantador e um deleite para os sentidos.
A única coisa que tenho a dizer menos bem é que o filme foca-se em demasiados detalhes  quando podia aprofundar mais a amizade entre Arrietty e Sho. Penso que se isto tivesse sido conseguido, os eventos que ocorrem mais tarde teriam tido maior impacto, tornando o filme mais memorável. Ainda assim, achei o final bastante emocionante e melancólico.
Outro ponto que achei mais fraco foi a tensão nos momentos de maior perigo a que a pequena família é exposta.
De resto, adorei!

Por vezes criticamos certos aspectos que nos parecem mais negativos de um filme quando gostamos mesmo dele. Pensamos em tudo o que aconteceu e em tudo o que poderia ter acontecido, porque foi assim e porque não foi de outra maneira. Talvez seja o que me acontece aqui, visto que o filme é deslumbrante, mas no final fica sempre aquele gosto amargo de já ter acabado e querermos mais. É daqueles filmes que a nossa imaginação irá preencher os espaços da história que não foi contada e nos deixa intrigados. Mas penso que sejam sensações boas, pois quer dizer que o filme nos marcou de alguma maneira e não será facilmente esquecido.

Nota: 9/10