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Este artigo inaugura uma nova categoria na qual todos vamos participar com muito gosto: Nostalgia. Podia ter feito um trocadilho para adaptar a palavra mais ao nosso blogue (como o Natestalgia no Crunchyroll) mas não me apeteceu. Aqui falaremos de séries que nos marcaram quando pequenos. Séries que eram anime e que só o descobrimos muitos anos mais tarde. E eu vou começar com aquela que mais associo à minha infância pré-Sailor Moon (ou seja, antes dos nove anos).

Quando era pequena, a televisão portuguesa era bastante diferente do que é agora e os desenhos animados que passavam eram, sobretudo, adaptações literárias de grandes clássicos. Muitas delas vão figurar aqui como, por exemplo, a do Little Women, The Secret Garden, Pollyanna entre outras. Mas a que me marcou mais foi, sem dúvida, Huckleberry Finn Monogatari. Porquê? Porque representava toda uma liberdade que hoje associo à minha adorada e saudosa infância.

Nesta altura passava as férias de Verão em casa da minha avó materna. Durante a manhã ia à praia com o ATL da escola, regressava a Setúbal, tomava banho, almoçava aquelas coisas deliciosas que só as avós sabem cozinhar e passava a tarde a fazer jogos de palavras com ela e a ver desenhos animados. A seguir ao episódio ia para o quintal brincar ao que tinha acabado de ver. Sendo filha única e nunca tendo tido grande habilidade para fazer e manter amizades sempre tive que usar muito a minha imaginação. Então, quando estava lá fora, imaginava que estava nos cenários dos meus desenhos favoritos a brincar com os personagens. Levava-os comigo para todo o lado. E isto foi particularmente verdade no que toca a Huckleberry Finn.

Para quem não conhece nem as Aventuras de Tom Sawyer nem as de Huckleberry Finn, basta-me dizer que são livros que nos falam de infâncias como hoje já não se vivem. Particularmente o sobre Tom Sawyer já que o de Huckleberry Finn aborda questões bastante mais sérias como o racismo e a liberdade do indivíduo. Sim, foquemo-nos n’As Aventuras de Tom Sawyer. Tom é um rapaz sem qualquer sentido de responsabilidade, mentiroso e aventureiro, com uma imaginação bastante fértil que lhe permite armar os maiores esquemas – como o famoso episódio da cerca caiada. Os longos dias de Verão eram passados em total liberdade pela aldeia, campos e rio onde se encontrava com Huckleberry Finn, um rapaz com um passado turbulento com quem ninguém se gostava de cruzar. Juntos têm diálogos fascinantes, super divertidos e, uma coisa que me lembro bastante bem, com elementos supersticiosos deliciosos (como uma história com um gato preto cujos detalhes agora não me vêm à cabeça). Era uma infância diferente, livre, onde as crianças eram forçadas a usar a imaginação em vez de estupidificarem com o que a televisão lhes oferece. Uma infância parecida com a minha em que acreditava que tudo era fácil, possível e que naquele quintal tão bem meu conhecido existiam sempre novos mistérios por descobrir: com os meus amigos imaginários.

Os tons mais sérios do livro sobre Huckleberry Finn não estão, claro, presentes na série. Basta olhar para Jim – não é um escravo fugido, é um miúdo bem vestido. As próprias histórias são bastante diferentes das dos livros – já nesta altura os produtores se viam forçados a divergir do trabalho original para “esticar” a série. Mas o conteúdo, a aura, sempre lá esteve. Lembro-me tão bem do último episódio, quando Tom e Huck conseguem ir de jangada até ao alto-mar. O que vejo hoje que aquilo simbolizava. É uma série que não me importava nada de rever. Mesmo.

O que é que a série me ensinou? Ensinou-me a brincar e a viver a infância. Há algo melhor do que isso?