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Quando se embarca num projecto de determinada envergadura é difícil prever durante quanto tempo será bem recebido, se a qualidade se vai sempre manter ou mesmo como vamos atar as pontas soltas – que nós próprios criámos – no final. Urasawa Naoki não é novato nenhum no que toca a histórias de grande dimensão com enredos intrincados. Afinal, é ele o autor do excelente Monster e de outros manga com menor popularidade que também abraçam o género thriller. Porém, muitos afirmam que 20th Century Boys é a sua obra prima. Será?

Resumo:

Endo Kenji chegou aos críticos thirty-something numa posição pouco favorável. Após o fracasso da sua banda viu-se obrigado a voltar a viver com a mãe e a tomar conta da loja de família (que agora é um mini-mercado). Como se isso não bastasse, tem também que tomar conta da sobrinha, Endo Kanna, de cuja mãe se desconhece não só o paradeiro como os motivos que levaram a deixar a filha para trás. Um dia, Kenji lê a notícia que um dos seus amigos de infância, Donkey, se suicidou. Este facto parece estar estranhamente aliado ao desaparecimento de um professor de electrotecnia e à constante presença de um símbolo nas “cenas do crime”. Um símbolo que não é nada estranho a Kenji.

Este símbolo está associado a uma organização liderada por um homem que se dá a conhecer apenas por “Friend”. Neste momento da história a organização é apenas uma espécie de IURD que está a tentar criar raízes na mente das pessoas e no governo do próprio país. O que pode esta organização ter a ver com Kenji, com a sua família e com as suas brincadeiras de infância? O que motiva “Friend”? Quais são os seus verdadeiros objectivos?

 Self-explanatory

Crítica:

A narrativa divide-se em três partes distintas:

Primeira parte: Kenji toma conhecimento da morte de Donkey e começa a investigar o que poderá estar por trás dela. Descobre a ligação que tem com “Friend” e começa a traçar um plano que poderá travar os seus planos. Para tal, reúne os seus amigos de infância já que todos estão, directa ou indirectamente, envolvidos. Chega o dia do ataque planeado – véspera de ano novo do ano 2000 – e o grupo de amigos faz de tudo para travar “Friend” e descobrir a sua identidade.

– Segunda parte: Após o fracasso do plano, o grupo de amigos desintegra-se e alguns deles estão presumidamente mortos. Endo Kanna, agora uma adolescente, enfrenta diariamente pessoas que difamam a memória do tio, apontado como responsável pelos acontecimentos da véspera de ano novo (Bloody New Year’s Eve, como ficou conhecida para a história). Simultaneamente vemos como os outros amigos de Kenji estão, como sobreviveram. Após descobrir o plano de uma tentativa de assassínio do Papa, Kanna e os membros que restam do grupo de Kenji (incluíndo alguns novos personagens) tentam, de novo, pôr um ponto final nos planos de “Friend”.

Terceira parte: Novo fracasso, novo arco. Desta feita temos um “Friend” dono supremo do mundo que planeia dizimar por completo a Humanidade. Instilou nos seus seguidores um medo de um futuro ataque alienígena e organizou diversas facções de policiamento violento. Tóquio está rodeada por altos muros supostamente intransponíveis. Não há sinal de nenhum membro do grupo que luta pela justiça tirando Kanna, líder de uma organização e apelidada de Ice Queen. À semelhança dos outros arcos há uma organização em grupo para salvar o destino do Homem mas esta parte em específico tem algumas surpresas na manga.

O que cimenta as três partes são as recordações de infância dos vários membros do grupo de Kenji. É através delas que o leitor obtém algumas respostas e ideias para o possível desenrolar dos acontecimentos, pois é nessas memórias que está a génese de toda a situação que se vive no “presente”.

Infelizmente o manga não consegue ser coeso até ao fim. Pessoalmente creio que podia ter terminado no final do segundo arco; Naoki podia ter transposto as “surpresas” da terceira parte para a segunda e assim acabar a história em grande. Com a existência de uma terceira parte temos uma série que acaba por se arrastar demasiado e que começa a criar alguma frustração no leitor. Particularmente quando nos são apresentados personagens novos na recta final da história – é um momento em que já só queremos que tudo acabe e Naoki põe a nossa paciência à prova. Este tipo de técnica para prolongar o suspense já houvera sido utilizado em Monster mas não a esta escala. 20th Century Boys podia, de facto, ser a obra-prima de Naoki e não vou contra aqueles que o dizem – cada um tem a sua opinião e isso é bastante saudável. Mas coloco Monster à frente unicamente por causa da terceira parte. Um autor devia saber quando acabar a sua obra e, infelizmente, aqui não foi o caso.

O final é aberto, o que assenta bastante bem. Contudo, Naoki achou necessário criar uma curta sequela que oferece mais respostas, de nome 21st Century Boys. Ainda não li mas, num futuro próximo, faço intenções de o fazer. Embora o final tal como está esteja perfeito. É talvez a cena com maior sensibilidade e beleza de todo o terceiro arco.

8/10: Não há duvida que Urasawa é um grande artista e um excelente contador de histórias mas devia saber reconhecer quando pôr um ponto final nas suas criações.