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Num universo de séries vasto e cada vez maior, é, por vezes, difícil encontrar uma que seja original e que nos surpreenda. À medida que vamos descobrindo mais, as nossas exigências apuram-se, tornamo-nos difíceis de satisfazer, quer seja pela animação, quer seja pela qualidade da história e a sua originalidade.

Mawaru Penguindrum aparenta, à primeira vista, ser uma dualidade difícil de descortinar. Por um lado, a curta sinopse que se encontra pela internet não é muito surpreendente: uma série sobre três irmãos, dois rapazes e uma rapariga, a rapariga muito doente e os irmãos que fazem tudo para a salvar. Por outro, existem pinguins, uma rapariga com um vestido irreverente e um chapéu peculiar. Assim sendo, é necessário ver os vinte e quatro episódios para saber o motivo que leva uma série destas a possuir uma pontuação superior a oito valores em muitos lugares. E, independentemente de tudo, uma coisa é inquestionável: a série é original.

Tenham em atenção que a crítica possui spoilers importantes sobre o enredo.

Shouma, Himari, Kanba

Mawaru Penguindrum é um anime de 2011, produzido pela Brains Base e realizado por Ikuhara Kunihiko, o qual já esteve a cargo de séries famosas, como Shoujo Kakumei Utena e algumas temporadas de Sailor Moon. Existem quatro personagens fulcrais neste anime, embora, no início, sejamos só confrontados por três. Kanba Takakura, Shoma Takakura e Himari Takakura são três irmãos que vivem sozinhos na mesma casa, cuidando de si próprios na ausência dos pais, os quais se encontram desaparecidos. Himari é uma menina frágil, cuja saúde se encontra muito debilitada devido a uma doença grave. Um dia, quando os três visitam um aquário, Himari desmaia e é reencaminhada para o hospital, sendo o seu estado crítico. E a menina morreria se não fosse pela intervenção de três pinguins e uma estranha entidade (a chamada Princess of the Crystal) que a salva, com a condição de que os dois irmãos procurem o Penguin Drum. A partir deste dia, os irmãos passam a ser acompanhados pelos três pinguins e conhecerão, a certa altura, a outra personagem fundamental no enredo: Ringo Oginome, uma rapariga que tem, nas suas mãos, e sob a forma de um diário, a capacidade de alterar o destino.

Princess of the Crystal

A história de Mawaru Penguindrum é complexa e, por diversas vezes, difícil de acompanhar. Esta é, aliás, a minha principal crítica à série, pois existem mudanças no enredo que tornam o seu ritmo bastante distinto do habitual. Existe a premissa fulcral de Kanba e Shoma terem de encontrar o Penguin Drum para salvar a irmã, mas há muitos outros temas embrenhados neste objectivo, desviando um pouco o espectador deste facto. As personagens que vão sendo introduzidas são enigmáticas e criam um certo ambiente de mistério, mas por vezes este é demasiadamente exagerado, acabando o espectador por não entender na totalidade quais os seus motivos.

Shoma e Ringo

As relações entre as personagens também são algo estranhas. Começando logo por Himari e os irmãos, existe uma clara preferência de Kanba pela irmã, algo que, a título pessoal, me causava alguma estranheza, porque nunca fui grande fã de relações amorosas (sejam elas platónicas ou reais) entre irmãos. E embora se fique a saber que Kanba não tem, na realidade, qualquer grau de parentesco real com Himari, é algo para mim difícil de aceitar, apesar de tudo, bem como a relação entre Himari e Shoma. Outro exemplo é o de Masako Natsume, a qual nos parece, inicialmente, um interesse amoroso de Kanba, mas acaba por se revelar algo muito distinto. A minha preferida foi, sem dúvida, a relação entre Takakura Shoma e Ringo Oginome, o casal mais querido e engraçado de toda a história.

A sensação que a série me transmitiu foi, pessoalmente, de muita confusão e derivações no enredo. No fundo, o objectivo de certas personagens tornou-se estranho para mim, e creio que não houve uma conclusão definitiva quanto a algumas, como Tabuki, por exemplo. Inicialmente, todas as personagens giram à volta de Momoka, a irmã falecida de Oginome, a qual, como se vem a descobrir, tem poderes especiais. Contudo, existe uma clara viragem na série, passando esta a incidir mais na organização à qual pertenciam os pais de Shoma, Kanba e Himari, deixando de lado alguns temas que gostaria de ter visto mais. A própria Princess of the Crystal, que tão importante pareceu ser no início, acaba por ser menos relevante ao longo da série, como se apenas fosse um elemento que contribuísse para atrair fãs, com todo aquele cenário polvilhado por cores, frases feitas e clichés.

No entanto, é inegável que Mawaru Penguindrum é marcado pela originalidade do seu enredo. Muitas personagens são adoráveis e, apesar daquela questão da estranha relação entre os três irmãos, a adoração que tinham uns pelos outros era bonita. A sua originalidade é visível através da animação das cenas, a transição entre os cenários. Além disso, os pinguins são um elemento muito engraçado, atribuindo uma vertente de comédia à história, não se tornando num aspecto irritável ou simplesmente fora de contexto. Muitos dos temas são controversos, se analisados de uma forma mais profunda, e, por isso, a comédia é algo importante para suavizar esses mesmos assuntos. Contudo, é uma série pautada por elementos bastante sérios; não se deixem enganar pelo seu ambiente “leve” e descontraído, já que ele se altera bastante com o desenrolar da história, algo que, no meu entender, é bastante interessante e de valorizar.

A música também é bastante adequada, variada e memorável. Existem temas bastante bonitos, tanto instrumentais como de abertura e encerramento. Yukari Hashimoto fez um bom trabalho, como já havia feito com Toradora!. ROCK OVER JAPAN será sempre um tema associado à série, e a minha preferência pessoal vai para Ash-Gray Wednesday, pelas Triple H.

Mawaru Penguindrum é uma série cujo enredo é complexo, mas que proporciona uma boa história de entretenimento. Se o público se abstrair de alguns pormenores, é muito agradável, e acredito que o final satisfaça os fãs. No que toca a mim, satisfez-me, e não me cheguei a incomodar com alguns aspectos que não cheguei a ver esclarecidos. Tem personagens inesquecíveis e momentos sorridentes, nem que seja pelas cenas dos pinguins que, afinal, são mesmo animais adoráveis.