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As Fábulas da Floresta Verde (1973)

De um modo geral existem poucas memórias dos primeiros anos de vida de cada pessoa. Isto acontece pois o cérebro humano encontra-se em fase de desenvolvimento, mas isso não significa que as informações a respeito do mundo que nos rodeia não sejam gravadas. Essas informações penas são “arquivadas” de outra forma, num outro contexto e com outras referências. O conhecimento que vamos adquirindo ao longo desse tempo torna-se de difícil acesso pois a forma como interpretamos o mundo torna-se diferente. Mas as memórias dos primeiros tempos da nossa vida permanecem dentro de nós e afectam o nosso inconsciente na vida adulta, alterando o nosso comportamento e podendo ser despertadas por determinados eventos.

As Fábulas da Floresta Verde são provavelmente a série mais antiga que me recordo de ver. É inspirada numa série de livros publicados nas décadas de 1910 e 1920 pelo escritor americano Thornton Burgess e foi criada em 1973 pelo estúdio de animação Zuiyo Eizo (o antecessor da Nippon Animation). Passou na RTP cerca de uma década depois, mais precisamente em 1985 (em meados de 90 passou novamente na TV). A história gira à volta das aventuras diarias dos habitantes da bela floresta verde, com as figuras principais Joca e Mara, um casal de marmotas. Como personagens secundarios temos o coelho Pompom, o esquilo Quico, o guaxinim Guru, o pássaro Avelar, o urso Lino, entre outros. Os animais andam sempre a fugir da raposa que os quer caçar.

Eu tinha cerca de 3 anos na altura em que passou pela primeira vez na RTP e apenas me lembro de alguns fragmentos desse tempo, que muitas vezes são despertados ao ver o genérico da série. Para mim, recordar a infância é uma sensação estranha mas ao mesmo tempo reconfortante, apesar das lembranças serem um pouco turvas e por vezes não fazerem sentido. É resgatar momentos no tempo em que via o mundo de outra maneira, imaginava locais que não existiam e mesmo os que ainda hoje existem não parecem os mesmos.
A minha casa mudou, mas ainda me lembro de alguns pormenores. Era tudo tão grande… ou talvez eu fosse pequeno?! Recordo-me do ambiente e decoração da altura, das cadeiras, do sofá, da pintura das paredes e a cor das portas. No meu quarto lembro-me principalmente da enorme janela que tinha vista para a serra e do vento forte que “assobiava” ao passar através dela. Tinha de olhar para cima ou empoleirar-me no parapeito da janela para poder observar o que se passava lá fora. Na sala de jantar eram as portadas que davam para a varanda onde eu me encostava a observar o que se passava no exterior. Talvez tivesse uma fixação pelo que se passava no mundo exterior pois estava sempre pronto para ir explorar e brincar para a rua. Ainda na sala de jantar lembro-me de me esconder por baixo da mesa, da alcatifa que cobria o chão e de empurrar a minha irmã na aranha como se de uma corrida de rally se tratasse. Já na rua, recordo-me de andar de triciclo pelo quintal e do pequeno mas suficientemente grande portão de madeira que me impedia de ir mais alem… lembro-me de outras coisas, mas não vale a pena estar a contar pois ficaria um texto muito extenso e confuso. Para além de que existem coisas que não sei bem em que momento no tempo se inserem. O que é certo é que tive uma infância feliz, sempre rodeado da minha família (mesmo a minha avó que na altura estava a emigrar na França vinha-nos visitar sempre que podia).

Agora apercebo-me que a vida passa demasiado rápido, quando se é criança o tempo parece não existir. Mas o passado tem uma relação com o agora, é nele que estão trancados a sete chaves os momentos que nos moldaram na pessoa que somos hoje… até que algum pormenor que nos rodeia consiga desbloquear as memórias que pareciam perdidas no tempo.